Crime na Amazônia

Escalada da violência no Vale do Javari continuará, avalia Cimi

Sem uma resposta contundente do governo brasileiro, insegurança na terra indígena tende a ser ampliada

Jefferson Ramos
jefferson.ramos@acritica.com
19/06/2022 às 07:41.
Atualizado em 19/06/2022 às 07:41

Indigenista Bruno Pereira e o jornalista Dom Phillips foram mortos por tiros de arma de caça, tiveram os corpos esquartejados, queimados e enterrados na mata (Foto: Reprodução/TV Globo)

Apesar da comoção internacional com o assassinato do jornalista britânico Dom Philips e do indigenista brasileiro, funcionário licenciado da Fundação Nacional do Índio (Funai), Bruno Pereira, nada deve mudar na região do Vale do Javari, na próximo à Atalaia do Norte, onde os restos mortais das vítimas foram encontrados na quarta-feira (15). 

Essa é avaliação do coordenador da equipe de apoio aos povos livres e isolados do Conselho Missionário Indigenista (Cimi), historiador e indigenista Guenter Francisco Loebens. Segundo ele, a escalada de violência contra ativistas locais e povos indígenas vai continuar, dado que o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL) não sinalizou uma posição mais contundente no sentido de "enfrentamento maior dos crimes socioambientais” na Amazônia. 

Para o indigenista, a ausência do aparato estatal de segurança pública no Vale do Javari deixa a tarefa de garantir a inviolabilidade do território indígena já demarcado sob responsabilidade dos próprios indígenas. 

“A tendência é que essa violência continue até porque há uma omissão total do governo no combate à práticas ilícitas. Porque esses grupos interessados na exploração de recursos naturais nas terras indígenas se sentem fortalecidos, inclusive, para afrontar comunidades. E até mesmo afrontar órgãos públicos que têm esse trabalho de fiscalização”, prevê o indigenista.

Na prática, Bruno Pereira pediu licença não remunerada da Funai justamente para dar treinamento de monitoramento e abordagem de ameaças para Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari). Pereira pediu licença depois de ter sido exonerado da Coordenação Geral de Índios Isolados e Recém-Contatados, na qual esteve por 14 meses.

Ele tinha uma vasta experiência na terra indígena Vale do Javari e foi dispensado do cargo em outubro de 2019, durante o governo de Bolsonaro, sem motivos técnicos aparentes, de acordo com indigenistas.

A exoneração do cargo foi assinada pelo secretário-executivo do ministério então comandado pelo ex-juiz federal Sérgio Moro (Justiça e Segurança Pública). Naquele ano, Pereira chefiou a maior expedição para contato com os isolados em 20 anos.

A CRÍTICA procurou tanto o Ministério da Defesa e o Ministério da Justiça e Segurança Pública, mas apenas o Ministério da Justiça deu retorno ao email da reportagem respondendo com um tweet do ministro André Torres lamentando as mortes e parabenizando o empenho das forças de segurança, mas não houve resposta à pergunta sobre o aumento da presença federal no Vale do Javari.

Abordagem 

Um trecho de documentário produzido pela emissora Al Jazeera há alguns meses mostra um embate entre o indigenista Bruno Pereira e o pescador Amarildo da Costa Oliveira, o Pelado, nas águas do Vale do Javari, às margens de uma Terra Indígena.

Pelado confessou que matou os dois profissionais à queima-roupa, esquartejou os corpos, e ainda incendiou e enterrou em uma área próxima a um igarapé.

No registro, Bruno está no barco de uma patrulha indígena que aborda uma embarcação pesqueira comandada por Pelado. Ao ser alertado estar próximo da reserva reage de modo agressivo:

“Essa área aqui é zona de pesca, tu sabe disso. A área aqui é da comunidade, não tem nada a ver com indígena não. Vai tomar teu rumo ai”, diz ele, gesticulando enquanto segura uma faca e um prato com frutas.

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