Roraima

'Cadê os Yanomami': entenda a mobilização que denuncia desaparecimento de indígenas

Mobilização pede esclarecimentos, após a comunidade Aracaçá, localizada na terra indígena Yanomami em Roraima, ser encontrada queimada e vazia. Indígenas denunciam garimpeiros

Lucas Vasconcelos
online@acritica.com
04/05/2022 às 14:15.
Atualizado em 04/05/2022 às 14:16

(Foto: Júnior Hekurari/Divulgação)

"Cadê os Yanomami?". Essa é a pergunta que vem sendo bastante repercutida nas redes sociais, nos últimos dias. Artistas, políticos, lideranças indígenas e entidades vem se mobilizando e pedindo esclarecimentos, após a comunidade Aracaçá, localizada na terra indígena Yanomami em Roraima, ser encontrada queimada e vazia.

O fato se deu após a denúncia - realizada no dia 25 de abril - de que uma menina inamomâmi, de 12 anos, foi estuprada e morta e uma criança de três anos jogada em um rio Uraricoera, em Roraima. Na comunidade viviam, aproximadamente, 25 pessoas.

De acordo com o autor da denúncia e presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena Yanomami e Ye'kwana (Condisi-YY), Júnior Hekurari Yanamomami, a menina ianomâmi foi estuprada e morta por garimpeiros que exploram ilegalmente a região. E que ao saber do fato, encaminhou a denúncia ao Polícia Federal (PF), ao Ministério Público Federal (MPF), ao Ministério da Saúde (MS) e à Funai.

Ouro em troca de silêncio

Ainda conforme o presidente do conselho, os indígenas sofrem ameaças dos próprios garimpeiros para que não denunciem os seus crimes. O clima do terror imposto pelos garimpeiros dificulta as investigações.

"Ao chegar o local avistamos a comunidade em chamas e sem a presença de moradores indígenas, que só apareceram 40 minutos após pousarmos, somente para resgatar materiais de garimpeiros. Após insistirmos, alguns indígenas relataram que não poderiam falar, pois teriam recebido cinco gramas de ouro dos garimpeiros para manter o silêncio", descreveu.

Entretanto, após Júnior Hekurari se reunir com outras lideranças indígenas, constatou que o incêndio da aldeia pode ter sido causada pelos próprios indígenas, devido as tradições e costumes do povo Yanomami.

"É costume dos yanomami, após a morte de um ente querido, queimar a aldeia em que residiam e se locomover para outro local. Contudo, os indígenas Palimiú, que residem próximo à aldeia nos afirmaram que os ianomâmis estão perambulando pela floresta, na altura do rio Uraricoera, buscando um local seguro, com medo de novo ataque do garimpo", declarou Hekurari.

O que dizem os órgãos federais

Após terem recebido a denúncia do presidente do Condisi-YY, a Polícia Federal, Ministério Público Federal e a Funai emitiram uma nota conjunta, no dia 28 de abril, afirmando não ter encontrado nenhum vestígio de estupro e homicídio e nem indícios da morte de outra criança desaparecida. 

As autoridades constataram ainda que a aldeia tinha sido queimada e os 24 ianomâmis que viviam na região desapareceram. Mas, que os órgãos seguem com as investigações sobre o caso.

"Não foram encontrados indícios da prática dos crimes de homicídio e estupro ou de óbito por afogamento. [...] Mais informações apenas serão divulgadas quando se der a conclusão dos trabalhos. A partir do término da investigação o MPF analisará as medidas cabíveis", descreveram as autoridades.

Cobranças pelo STF e Senado

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), cobrou no dia 28 de abril, a investigação e o esclarecimento das circunstâncias da denúncia sobre a morte da menina ianomâmi.

Durante seu discurso, a magistrada afirmou que as mulheres brasileiras, entre elas as indígenas, são vítimas de "descalabro de desumanidades".

"Essa perversidade, acho, senhor presidente, é a minha palavra, não pode permanecer como dados estatísticos, como fatos normais da vida. Não são. Nem podem permanecer como notícias”, disse a ministra.

Devido a repercussão do caso, a Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado Federal decidiu formar uma grupo para acompanhar as medidas de combate ao avanço do garimpo ilegal nas terras indígenas ianomâmis, localizadas em Roraima. O requerimento é de autoria do senador Humberto Costa (PT-PE).

“É obrigação da CDH tomar providências contra esta mazela que está matando os Yanomami. O Estado brasileiro ainda é omisso e está deixando a comunidade Yanomami desaparecer", afirmou o senador.

A previsão é que a visita ocorra no próximo dia 12.

Omissão do governo

O presidente do Condisi-YY relatou ainda que não há investimentos dos órgãos federais para garantir a segurança e bem-estar dos indígenas.

"O governo diz que está gastando mais de R$ 1 bilhão na saúde indígena. A gente não está vendo esse dinheiro na assistência na ponta, nas comunidades. Principalmente, na saúde Yanomami. Falaram que R$ 210 milhões foram gastos durante dosi anos, mas não vemos esse dinheiro", criticou Júnio Hekurari.

A reportagem da A CRÍTICA solicitou nota da Polícia Federal e do Ministério Público Federal questionando sobre o andamento das investigações e aguarda o posicionamento dos órgãos.

Assuntos
Compartilhar
Sobre o Portal A Crítica
No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.
Portal A Crítica© Copyright 2022Todos direitos reservados.
Distribuído por
Publicado no
Desenvolvido por