NOVA VISÃO AMBIENTAL

Artigo de professor da USP sugere investimento na sociobiodiversidade da Amazônia

A destruição acentuada da Amazônia é apoiada pela visão de que a sustentabilidade ameaça a soberania, dominante no atual governo

Agência Bori
04/11/2022 às 16:19.
Atualizado em 04/11/2022 às 16:19

O panorama da atual governança florestal no Brasil e as reações vindas da sociedade civil e ativistas diante do aumento do desmatamento na Amazônia são descritos pelo professor sênior da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Abramovay, em artigo publicado, na última segunda-feira (31), na revista “Estudos Avançados”. O artigo traz uma narrativa que, nas palavras de Abramovay, funciona quase como uma denúncia.

Segundo o professor sênior, há uma visão dominante entre membros do atual governo de que a Amazônia precisa ser ocupada, de forma rápida e através de atividades agropecuárias, e extrativistas afim de garantir a soberania do território brasileiro. Para ele, estas ideias são defendidas pelas Forças Armadas, influenciada por discursos consolidados no período da ditadura militar, de que a proteção viria da exploração.

Conforme o estudioso, em seu artigo, as concepções vão na contramão de uma economia de conhecimento da natureza, a qual poderia trazer diversos benefícios como econômicos, sociais e ambientais ao país, incluindo o combate à criminalidade, a valorização da cultura, o aumento de investimentos estrangeiros para preservação e oportunidades de uso sustentável da floresta.

Na publicação, ele traz trechos de discursos como a do vice-presidente da República, Hamilton Mourão, no Webinar Brasil 2020 – 200 anos de Independência, o qual afirmou: “Uma das maiores questões que ameaça a soberania é a sustentabilidade.” 

Para Abramovay, tal visão vem do desconhecimento aliado a compromissos políticos e resulta na intensa destruição da Amazônia, acompanhada pelo fortalecimento de atividades ilegais e criminosas. Este processo, segundo ele, envolve o desvirtuamento da função das Forças Armadas. 

“Em vez de protegerem a floresta e as populações da Amazônia, estão, sob o pretexto da soberania nacional, protegendo e estimulando a criminalidade, a destruição da floresta, o tráfico de madeira, o garimpo de ouro e a grilagem de terras”, pontuou ele.
 
O pesquisador cita o combate à criminalidade como um dos possíveis benefícios de olhar a floresta amazônica de forma mais sustentável. O combate à emissão de gases emissores de efeito estufa também seria beneficiado pela redução do desmatamento, uma de suas principais causas. 

Além disso, a grande sociobiodiversidade das florestas tropicais detém alto potencial de geração de renda, luta contra a pobreza e inovação científica e tecnológica. “Estes militares preconizam formas de uso do território que não são capazes de aproveitar conhecimentos de povos da floresta e aquilo que a ciência hoje tem de mais avançado para dizer a respeito do uso sustentável da biodiversidade”, diz Abramovay.

Diante de estatísticas que mostram a destruição acentuada nos últimos anos, ativistas, empresários e outros atores relevantes têm se posicionado a favor de um novo olhar para a Amazônia. Para Abramovay, a unidade crescente entre os diversos setores da sociedade é fundamental neste cenário.
 
“As práticas econômicas destrutivas são norteadas por uma cultura, por um jeito de olhar para o território, que tem de mudar e vai mudar, as vantagens de uma nova visão tem de aparecer e isso é fundamental”, reforçou.

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